quinta-feira, 28 de junho de 2012

Tião, O Negro.


Sempre a ansiedade do desconhecido. O carro Uno ia cortando as estradas, levantando poeira. Mas chegou num lugar onde tinha que andar devagar... As pedras no caminho eram muito grandes, obrigando o veículo a andar bem devagar (mais tarde, encontrei pedras de outros tipos, maiores e mais difíceis de ultrapassar). Cheguei a uma localidade nunca visitada antes.

Era uma das minhas comunidades mais pobres. Uma rua de terra separando umas vinte casas de cada lado, precárias, construídas com barro e bambu. Foi engraçado ver as crianças saindo das casas e correndo para ver o carro, mas aquilo era o evento social do ano para eles. Fomos cobertos por abraços e apertos de mão ao sair do carro.

Então apareceu uma pessoa que me impressionou pela sua cor preta. Muito preto. Seus dentes brancos se destacam na face. Foi ele sair da casa e também ser cercado pelas crianças. Apesar de aparentar uns 50 anos, já tinha ultrapassado a casa dos 70. A agente comunitária veio nos apresentar: - “Este é o Seu Tião que cuida das crianças daqui.”.  “Cuida das crianças daqui? Como assim?”- Pensei.

Montamos nossa unidade numa pequena escolinha de alfabetização. Uma única sala de aula. Colocamos a balança, uma fita métrica dava a altura das crianças e de juntamos mesas com um colchãozinho em cima. A criança passava sendo pesada, medida sua altura, registrado e checado no cartão de vacinas e depois examinada por mim. O que mais me chamou a atenção era o quanto aquelas crianças se abraçavam na gente, sem que tivéssemos que fazer nada. Verdadeiramente, elas gostavam de nos abraçar.

Atendimento encerrado, fui conhecer a comunidade com o Tião. Ele me mostrou a fonte de água e falou dos tempos difíceis antes da luz  (garantida por painéis solares da CEMIG). “Mas, que horas os pais chegam?” Perguntei ao Tião. Ele sorriu. Claro, eles deviam estavam na roça, trabalhando para sustentar a família. Tião disse que só voltariam em alguns meses. Os pais daquelas crianças estavam em São Paulo trabalhando na colheita da cana de açúcar. Durante aqueles meses, Tião cuidava de todas. Todas aquelas crianças passavam meses sem seus pais que iam lutar por uma vida melhor para eles e afora a carência, estavam muito bem cuidadas e felizes.

Este é o nosso povo que vai à luta construir um país. Um povo trabalhador e generoso. E eu que quando criança queria que minha mãe ou meu pai sumissem de vez em quando ...

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