Sempre a ansiedade do
desconhecido. O carro Uno ia cortando as estradas, levantando poeira. Mas
chegou num lugar onde tinha que andar devagar... As pedras no caminho eram
muito grandes, obrigando o veículo a andar bem devagar (mais tarde,
encontrei pedras de outros tipos, maiores e mais difíceis de ultrapassar). Cheguei
a uma localidade nunca visitada antes.
Era uma das minhas comunidades
mais pobres. Uma rua de terra separando umas vinte casas de cada lado, precárias,
construídas com barro e bambu. Foi engraçado ver as crianças saindo das casas e
correndo para ver o carro, mas aquilo era o evento social do ano para eles. Fomos
cobertos por abraços e apertos de mão ao sair do carro.
Então apareceu uma pessoa que me
impressionou pela sua cor preta. Muito preto. Seus dentes brancos se destacam na
face. Foi ele sair da casa e também ser cercado pelas crianças. Apesar de
aparentar uns 50 anos, já tinha ultrapassado a casa dos 70. A agente
comunitária veio nos apresentar: - “Este é o Seu Tião que cuida das crianças
daqui.”. “Cuida das crianças daqui? Como
assim?”- Pensei.
Montamos nossa unidade numa
pequena escolinha de alfabetização. Uma única sala de aula. Colocamos a
balança, uma fita métrica dava a altura das crianças e de juntamos mesas com um
colchãozinho em cima. A criança passava sendo pesada, medida sua altura, registrado
e checado no cartão de vacinas e depois examinada por mim. O que mais me chamou
a atenção era o quanto aquelas crianças se abraçavam na gente, sem que tivéssemos
que fazer nada. Verdadeiramente, elas gostavam de nos abraçar.
Atendimento encerrado, fui conhecer
a comunidade com o Tião. Ele me mostrou a fonte de água e falou dos tempos
difíceis antes da luz (garantida por
painéis solares da CEMIG). “Mas, que horas os pais chegam?” Perguntei ao Tião.
Ele sorriu. Claro, eles deviam estavam na roça, trabalhando para sustentar a
família. Tião disse que só voltariam em alguns meses. Os pais daquelas crianças
estavam em São Paulo trabalhando na colheita da cana de açúcar. Durante aqueles
meses, Tião cuidava de todas. Todas aquelas crianças passavam meses sem seus
pais que iam lutar por uma vida melhor para eles e afora a carência, estavam
muito bem cuidadas e felizes.
Este é o nosso povo que vai à
luta construir um país. Um povo trabalhador e generoso. E eu que quando criança
queria que minha mãe ou meu pai sumissem de vez em quando ...
Nenhum comentário:
Postar um comentário