terça-feira, 12 de maio de 2015

Minha Trajetória Acadêmica Profissional


Minha formação acadêmica começa na Escola da Comunidade Euclides da Cunha, em Juiz de Fora - MG, onde dei os primeiros passos na matemática, no português, no que chamávamos de primário. Às professoras, que chamávamos "tia", sempre renderei minhas homenagens porque toda grande marcha começa com o primeiro passo e o primeiro passo foi dado graças ao amor e dedicação delas.

Em 1984, mudei para Brasília e fui matriculado no Colégio Militar, onde me formei em 1989. Estava em Brasília num momento conturbado entre o período militar e a "Nova República" e acompanhei como um jovem adolescente, de muito perto do poder, as transformações políticas daquele período. No Colégio Militar, começou a minha formação como cidadão.

Em 1990, entrei para a Academia Militar das Agulhas Negras - AMAN, em Resende - RJ. Num exercício de sobrevivência na Selva, a morte de um colega que dividia comigo o beliche me despertou para a medicina. O fato envolvendo o cadete Márcio Lapoente da Silveira teve repercussão nacional e internacional, e foi decisivo para minha mudança de carreira. Em 1991, abandonei o curso da AMAN.

Após diversas tentativas no vestibular, ingressei no curso de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais em Belo Horizonte - MG em 1994, concluindo o curso em 2000. Durante a graduação, fui bolsista da própria universidade (Programa de Aprimoramento Discente - PAD - UFMG), da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), na linha de Doença de Chagas, tendo participado de encontros, congressos e publicações.

Decidido a conhecer a realidade do interior pobre de Minas Gerais, fui trabalhar em Chapada do Norte, uma cidade do Vale do Jequitinhonha. Lá vi pela primeira vez a distribuição de cestas básicas e caminhões pipa brancos do Exército que distribuíam água. Também conheci ali a realidade das migrações temporárias quando os homens (e muitas mulheres) iam para a coleta de cana em São Paulo e depois retornavam, deixando crianças solitárias e famílias tristes e divididas no primeiro momento e felizes no segundo. Em Chapada do Norte, pela falta de professor que ameaçava o fechamento do 2o grau, acabei dando aulas de física à noite. Com isso, minha experiência foi além da medicina e entrou no campo da educação e formação de jovens. Não querendo parar de estudar, durante o período em Chapada do Norte, fiz um curso de especialização em Saúde da Família, patrocinado pelo Ministério da Saúde, e com apoio do município. O curso foi realizado em Diamantina - MG, a linda cidade de Juscelino Kubitschek.

Em 2003, buscando conhecer o Estado e outra experiência, mudei para Água Boa - MG, cidade do Vale do Rio Doce, onde fiquei até 2004 quando o então prefeito perdeu a reeleição e demitiu todos os servidores da saúde. Isso se tornou uma ação judicial que se arrasta até hoje. Nesta cidade, trabalhei no Programa de Saúde da Família e como plantonista no Hospital da cidade um final de semana por mês. Além de atender urgência e emergência, também realizava partos, o que era bastante estressante mas também ampliou minha experiência como médico.

Em outubro de 2004, entrei como médico da família na unidade básica de saúde Copacabana, da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Saindo da experiência como médico de uma cidade pequena, onde tinha contato direto com o prefeito, e tínhamos plena liberdade de trabalho, cai numa cidade com processos bem estruturados e com uma gerente de unidade que mandava e desmandava. Não foi uma adaptação fácil e acabei optando por assumir, em março de 2005, um concurso público em Contagem-MG, onde voltei a ter uma unidade sem gerente, onde eu e a equipe podíamos organizar nosso processo de trabalho com liberdade. Ainda em 2005 iniciei atividades numa Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Contagem-MG. Iniciei como contrato administrativo, e depois em 2006 entrei por concurso público. Meu trabalho nesta UPA me levou a ser convidado a trabalhar em um grande hospital particular de Belo Horizonte, o Hospital Mater Dei. Percebendo que era uma oportunidade de ampliar a minha experiência passando a trabalhar também com clientela particular e de planos de saúde, aceitei a proposta e em 2008 passei a ser parte da equipe de Clínica Médica II daquela instituição. Em 2008, recebi também o convite para fazer parte da Câmara Técnica de Medicina de Família e Comunidade do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais, onde fiquei até 2013, ao final do mandato do Conselheiro que havia me convidado.

Devido ao meu trabalho em Contagem, fui convidado, em 2012, pelo Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva - NESCON - UFMG, para ser teleconsultor de Medicina de Família e de Clínica Médica, onde atuo até hoje. Isso me deu a oportunidade de conhecer os problemas e dificuldade de vários colegas médicos pelo interior do país, não só de MG, mas de toda área de atuação do NESCON.

Em 2008, para me motivar a estudar, resolvi me inscrever no Concurso para Obtenção de Título de Especialista em Clínica Médica, da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, e obtive aprovação, tornando-me oficialmente especialista em clínica médica.

Quando foi implantada a residência médica (RM) em Medicina de Família e Comunidade no Hospital Municipal de Contagem, fui convidado a participar da preceptoria, tendo tido o orgulho de participar da formação de cinco residentes. Devido à falta de inscritos no concurso de RM, o programa acabou suspenso.

Em 2013, fui convidado a assumir a direção técnica do Centro de Consultas Especializadas Iria Diniz (CCE Iria Diniz). Após recusar alguns convites, reconsiderei a experiência e aceitei o desafio. Para me qualificar ao cargo, procurei cursos na área de gestão e entrei no curso MBA Executivo em Saúde da Fundação Getúlio Vargas - FGV em outubro de 2013 e o estou cursando. A previsão é de conclusão ao final de 2015.

Em 2014, fui chamado pelo Secretário Municipal de Saúde de Contagem e informado que tinha sido um dos escolhidos pelo município para fazer um curso no Hospital Sírio Libanês - SP. Assim fiz o Curso de Gestão de Programas de Residência Médica no SUS (PGRM), tendo concluído após aprovação de Trabalho de Conclusão de Curso - TCC e Projeto Aplicativo - PA, no mesmo ano. Em 2015, devido ao meu aproveitamento no curso, fui convidado pela Direção do Sírio Libanês para o Curso de Aperfeiçoamento em Processos Educacionais em Saúde (APES), e aceitei.

Permaneço como diretor do CCE Iria Diniz, como médico plantonista da equipe de Clínica Médica II, como estudante do curso MBA Executivo em Saúde da Fundação Getúlio Vargas, e do curso de Aperfeiçoamento em Processos Educacionais em Saúde do Hospital Sírio Libanês.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Tião, O Negro.


Sempre a ansiedade do desconhecido. O carro Uno ia cortando as estradas, levantando poeira. Mas chegou num lugar onde tinha que andar devagar... As pedras no caminho eram muito grandes, obrigando o veículo a andar bem devagar (mais tarde, encontrei pedras de outros tipos, maiores e mais difíceis de ultrapassar). Cheguei a uma localidade nunca visitada antes.

Era uma das minhas comunidades mais pobres. Uma rua de terra separando umas vinte casas de cada lado, precárias, construídas com barro e bambu. Foi engraçado ver as crianças saindo das casas e correndo para ver o carro, mas aquilo era o evento social do ano para eles. Fomos cobertos por abraços e apertos de mão ao sair do carro.

Então apareceu uma pessoa que me impressionou pela sua cor preta. Muito preto. Seus dentes brancos se destacam na face. Foi ele sair da casa e também ser cercado pelas crianças. Apesar de aparentar uns 50 anos, já tinha ultrapassado a casa dos 70. A agente comunitária veio nos apresentar: - “Este é o Seu Tião que cuida das crianças daqui.”.  “Cuida das crianças daqui? Como assim?”- Pensei.

Montamos nossa unidade numa pequena escolinha de alfabetização. Uma única sala de aula. Colocamos a balança, uma fita métrica dava a altura das crianças e de juntamos mesas com um colchãozinho em cima. A criança passava sendo pesada, medida sua altura, registrado e checado no cartão de vacinas e depois examinada por mim. O que mais me chamou a atenção era o quanto aquelas crianças se abraçavam na gente, sem que tivéssemos que fazer nada. Verdadeiramente, elas gostavam de nos abraçar.

Atendimento encerrado, fui conhecer a comunidade com o Tião. Ele me mostrou a fonte de água e falou dos tempos difíceis antes da luz  (garantida por painéis solares da CEMIG). “Mas, que horas os pais chegam?” Perguntei ao Tião. Ele sorriu. Claro, eles deviam estavam na roça, trabalhando para sustentar a família. Tião disse que só voltariam em alguns meses. Os pais daquelas crianças estavam em São Paulo trabalhando na colheita da cana de açúcar. Durante aqueles meses, Tião cuidava de todas. Todas aquelas crianças passavam meses sem seus pais que iam lutar por uma vida melhor para eles e afora a carência, estavam muito bem cuidadas e felizes.

Este é o nosso povo que vai à luta construir um país. Um povo trabalhador e generoso. E eu que quando criança queria que minha mãe ou meu pai sumissem de vez em quando ...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Conte a eles



“Vou te contar a minha história” - Sempre que ouço isso tenho a sensação que vou viver uma vida que não é minha e amadurecer.  Ele prosseguiu: “A persistência valeu a pena.” Chegou a minha vez. Os números da loteria eram exatamente os números do cartão que estavam na minha mão. Minhas pernas tremeram. O coração disparou. Uma alegria imensa me invadiu e senti minha face queimando. Conferido cinco vezes. Não tinha como estar errado. Eu era um novo milionário.
Entrei na Caixa louco para ver a cara do gerente. Ele olhou, abriu um sorriso e disse: “Meus parabéns”. Não sei em que momento comecei a perceber que todos os funcionários me apontavam com o olhar: “O sortudo é aquele”. Senti a vontade de dar aquele grito agarrado: “Sou eu. Pobreza nunca mais!”
Meu lema agora era: “casa nova com móveis novos”, e assim foi feito. Televisão ocupando a parede toda. Uma lareira para aquecer as noites frias e ar condicionado para refrescar os dias quentes. Carro importado? Sim senhor. E potente! Viagem? Europa, claro. Estados Unidos. Lugares onde as pessoas torcem a língua e falam de forma engraçada. Ver um português de verdade falando e não aquele português das piadas de boteco. Será que realmente todo francês fala afrescurado? Fui lá conferir.
Na volta da viagem aquela indisposição, verdadeira ressaca. Ela não passava. Resolvi procurar o melhor médico e, após os exames, veio o diagnóstico fatal. O tratamento que me fazia enjoar demais, perder o cabelo, e o pior eram as dores que não me largavam mesmo com os mais potentes analgésicos, até dormindo. Foi naquela hora que invejei todos à minha volta e senti que eles eram sortudos e eu um simples farrapo humano mendigando um remédio para as dores, para o enjoo, para voltar a viver. Foi então que percebi: Saúde é algo que só damos valor quando perdemos. É a nossa maior riqueza. ‘Pra’ mim, não mais. Conte a eles, doutor. Conte a eles o que é a verdadeira fortuna que nos permite viver e amar. “Prometa pra mim.” Foram suas últimas palavras.
Então vim aqui contar. Mas se você está tratando de alguma doença muito grave, e sente que perdeu a maior riqueza, levante seu ânimo. Um grande homem há 2.000 anos disse que era perdendo a riqueza aqui que acumulávamos Lá.
Se você tem a maior riqueza, use-a.
Aproveite mais um dia!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Dois encontros com o Diabo


Eu não queria aqueles encontros. E depois deles, nunca mais fui o mesmo... Tudo começa numa história muito antiga que conta que existia apenas o bem, formado por Deus e sua legião de anjos. Até que um se rebelou e o mau surgiu das mais variadas formas. Para alguns, o Diabo é apenas uma alegoria e, para outros, é um ser real, vivente que nos tenta a fazer escolhas erradas.

Eu morava numa cidade no interior de Minas Gerais, onde a vida simples enchia meus dias. Era médico e trabalhava em uma equipe do Programa de Saúde da Família em várias comunidades rurais onde fazíamos o tradicional trabalho preventivo, cuidando para que doenças como hipertensão e diabetes não virassem infarto, derrame, cegueira ou mesmo a morte. O Uno vermelho, velho e castigado cortava as estradas empoeiradas carregando vacinas que protegiam as crianças. Uma igrejinha ou uma sala de aula podiam virar um consultório, a única coisa que não aceitávamos eram crianças sem acompanhamento, mulheres sem fazer pré-natal, pessoas sem controlar a pressão arterial e o diabetes.

Ao final de uma manhã, quando o último paciente entrou, perguntei o que o trazia à consulta. A resposta dele foi que precisava de telhas para sua casa. Achei engraçado porque já tinha me acontecido de tudo na vida, menos ser confundido com um empregado de casa de construção. Disse que era médico e que não estava entendendo. Ele foi mais direto: “você sabe que a eleição está chegando e você é amigo do prefeito... Ele pode me ajudar e eu posso ajudá-lo”. Era uma pessoa oferecendo seu voto por telhas.

Com a derrota nas eleições, perdi o emprego e voltei para a capital. Aquela coisa de compra de voto ficou para traz. “Coisa de lugar pequeno e de um povo sem outras possibilidades”, pensei. Passado algum tempo, já em Belo Horizonte, conversando com uma pessoa sobre política, esta me disse que iria votar num candidato porque lhe devia três sacos de cimento. Diante do meu assombro, fez questão de explicar: “Veja bem, na verdade não foram três sacos de cimento, a pessoa me deu dinheiro e eu resolvi comprar os três sacos de cimento”.

Se o Diabo representa o surgimento do mau ou um ser que nos tenta a fazer o mau, pouco importa. Muitos de nossos males nascem não de políticos corruptos, mas de eleitores que os corrompem. Nascem de nosso desinteresse pela Política porque já vivemos tão ocupados acompanhando novela e futebol. Daqui pra frente, vamos lutar contra o Diabo? Não vamos vender nossos votos, vamos nos interessar pela política e pelos problemas e soluções de nossas comunidades... No futuro, contaremos como das trevas fez-se a luz...
Junte-se a nós por um mundo melhor!



Artigo publicado no Jornal "Gazeta de Contagem", edição 268, de 29 de maio a 4 de junho de 2012, que pode ser acessado em http://www.gazetadecontagem.com.br/index.php?option=com_flippingbook&view=book&id=38%3Aedicao-268-28052012&catid=2%3Agazeta-impresso&Itemid=3

domingo, 27 de maio de 2012

Pense, fale, aja


Pense, fale, aja

“Pense sempre coisas positivas e elas vão acontecer.” Era isso que sempre ouvia de minha tia. “Primeiro, o mundo é construído em nossa mente e depois no mundo.” Veja bem, ela não queria dizer que não é importante trabalhar duro para fazer as coisas, mas que primeiro as coisas devem ser bem planejadas. Se nós idealizarmos coisas ruins, como poderá sair alguma coisa boa? Este é o mundo onde vivemos. Antes daquela festa linda em que dois seres atrelam seu futuro diante de uma autoridade (padre, pastor ou juiz), muitas e muitas conversas, ideias e sonhos são divididos. É assim que se constitui a família onde se alicerça a sociedade. É, meu amigo, a família é o tijolo onde se constrói a sociedade. Mesmo entre pessoas tão próximas e que se amam, sempre existirá um que pensa uma coisa e outro que pensa outra. Ás vezes, brigas. Assim caminha a humanidade.

Na vida em sociedade, não é diferente. Nunca vamos encontrar uma associação que segue exatamente tudo aquilo que pensamos e queremos. É exatamente ai onde mora o perigo. Lembra que eu disse que tudo começa no plano das ideias? Agora eu estou dizendo que as pessoas pensam diferente e que o consenso é sempre algo muito difícil de conseguir. Portanto, se você apenas quiser seguir grupos de pessoas que pensam exatamente igual a você, amigo, você vai caminhar por esta vida sozinho. E estamos caminhando sozinhos... Nossas associações de moradores do bairro vivem às moscas... Nosso interesse por política é quase zero... Não temos paciência para ir a uma reunião do condomínio.... E assim, ideias não surgem, e coisas não acontecem. Pessoas sozinhas com ideias maravilhosas são apenas pessoas sozinhas e nada mais.

Vamos começar de novo e, desta vez, fazer da forma certa. Você vai ser tolerante com quem não pensa igual a você, tratando-os como gostaria de ser tratado. Vai entender que tudo na vida é uma construção coletiva, desde negociar a hora da mamada com sua mãe, quando tinha uma hora de vida, até decidir quem vai pagar suas dívidas enquanto você estiver mostrando seu passaporte para São Pedro.  O seu maior aliado também é seu maior inimigo. Existem muitas pessoas iguais a você, querendo sonhar, querendo dividir suas ideias, querendo construir um novo mundo. Você só conseguirá com elas, não estrague isso. Não perca seu tempo com o que não constrói. Não perca tempo com seu egoísmo ou com sua sensação de que sabe mais que os outros!

Participe de sua associação de bairro. Informe-se sobre os políticos de sua cidade e envie suas ideias para eles. Converse com seu vizinho sobre como melhorar as coisas onde você vive. Não desista quando fecharem a porta na sua cara. Mostre seu valor!
Junte-se a nós por um mundo melhor!

Artigo da edição 267 do Jornal Gazeta de Contagem de 22/05/12 a 28/05/12


Liberdade



Liberdade

Você abriria mão da sua liberdade? Aceitaria alguém controlando cada passo da sua vida? Certamente não. Começamos a vida sendo expulsos do aconchego materno, levamos um tapa do obstetra de plantão, somos então pesados, medidos e nossa impressão digital é colhida na sala de parto (Tudo bem pensado por aquele cara que chamam de médico. Primeiro ele usa uma máscara para ficar difícil de reconhecer e depois já tem nossa digital para nos acusar. Cobrar aquele tapa no bumbum de volta é impossível, melhor deixar pra lá.). Somos colocados no berço ou na cadeirinha, e nossos pais tomam todas as decisões (chegam a nos vestir de marujos aos  6 meses de idade! Quem aguenta?). Somos levados a parquinhos ou a shoppings lotados muito tempo antes de podermos comprar o que nos agrada.

Crescendo vamos aprendendo a escolher as coisas. Nosso primeiro grande trunfo é escolher a hora de fazer xixi e poder parar de usar fraldas.  Finalmente chegamos à escola, vamos escolhendo a matéria que gostamos e não gostamos. O fim do ciclo de estudos coincide com o primeiro emprego e com este temos dinheiro (é quando descobrimos que o mês é muito longo e que o dinheiro acaba muito antes). Escolhemos a namorada, noivamos e casamos (alguns casam sem conhecer a sogra. Pena ou sorte? Você decide).
Olhando assim, a vida é uma caminhada até previsível. Mas existem lobos te esperando no caminho da vovozinha. Um dos piores são as drogas. A história se repete no consultório médico, mas não é a mesma que contei antes. Ela começa com o experimentar, prossegue por evitar conversas ‘caretas’ e termina no vício, na escravidão. O sujeito passa a viver em função das drogas. São elas que decidem tudo na sua vida. E a primeira coisa que elas decidem é que você deve se afastar da própria família. Família e drogas não combinam. São inimigas mortais. Uma sempre quer que você abandone a outra. Os verdadeiros amigos também desaparecem, seja porque não querem ver você afundando, seja porque afundaram e morreram numa overdose. E a vida segue... ou não.

Normalmente, as famílias adoecem com o drogado. Pais se separam. A tranquilidade financeira desaparece junto com televisão, celular e outros aparelhos que se ficarem ao alcance viram mais um ‘barato’ na mão. Aparece a depressão, a ansiedade, o medo. “Será que meu filho volta para casa?” A grande dúvida que fica naquele ser que antes nos foi o aconchego materno, o lugar de onde saímos para levar a palmada do médico.

Para nossa alegria, existe um Ser que comanda o universo. E não importa que nome dão a Ele, pode ser Deus, Alá, Javé, Jeová, o importante é que nestes momentos de dor e desespero, Ele aparece. Nestes momentos, muitas mães são supridas pelo mesmo elemento que manteve Maria durante o suplício de Jesus, quando o mundo inteiro batia e cuspia no ser amado que estava a caminho da morte. No caso das drogas, a morte não é o único caminho. Existe a esperança e o tratamento. Existe a lágrima, mas também pode existir o sorriso.

E quem nunca experimentou as drogas, continue sem experimentar. Cresça e se torne cada dia mais independente. Torne-se o orgulho e o arrimo da família. Repita no coração as frases: drogas, nem morto.
Mas se você está no desespero e escuridão, abra a janela para a luz entrar. Sim, todas as manhas o sol chega para nos aquecer. É a esperança que nos dá a certeza que estamos vivos.
Artigo da edição 266 do Jornal Gazeta de Contagem de 15/05/12 a 21/05/12


O Milagre


O Milagre

A vida que traz cabelos brancos é a mesma que nos deixa muitas histórias para contar. Dificilmente um médico passou pela vida e não viu um milagre. É certo que temos que guardar segredo de tudo aquilo que ouvimos e vemos no exercício da profissão, e para isso lançamos mão de muitos recursos como, para ódio das feministas, dizer “o paciente” num sentido que não significa exatamente que seja um homem. Também mudamos a idade, contando um caso de um jovem como se fosse um velho ou de um velho como se tivesse a flor da idade. Milagre é outra dessas palavras interessantes. Sempre temos a tendência a acreditar que é algo sobrenatural, uma influência de Deus, uma intercessão de um santo (tive que procurar um dicionário para poder escrever intercessão sem errar). Milagre, na verdade, vem do latim miracùlum, e significava inicialmente prodígio, maravilha, coisa prodigiosa, extraordinária'.

Vou contar um milagre da mesma forma que eu o vivenciei, ou seja, usando a primeira pessoa, contando para vocês da mesma forma que o paciente me contou: “Tudo começou com uma dor de cabeça sem sentido. Não estava nervoso, nem preocupado com nada. E aquela dor de cabeça que nunca tinha sentido apareceu. Em seguida comecei a ter enjoos e vomitar. Meu Deus! Qualquer cheiro mais forte e meu estômago fraco já se entregava. Uma fraqueza me invadiu. Vivia cansado e dormia muito mais que o habitual. Para meu espanto, minha barriga começou a inchar. Enjoado, vomitando quase todos os dias, e minha barriga inchando. Não fazia sentido. Mas a balança denunciava aquilo que meus olhos não queriam ver. A barriga inchada tornou minha respiração difícil, tinha que respirar mais rápido e mais superficialmente. Minha capacidade de concentração, sempre tão boa, sumira. Meu andar modificou, se tornando lento e eu me desequilibrava toda hora. Vez por outra, sentia uma dor na barriga que, do mesmo jeito que vinha, ia embora. Tudo era muito estranho e eu estava sempre muito assustado e com medo de procurar um médico. Um dia, as dores se tornaram muito forte, nem tinham ido embora e já voltavam e não encontrei outra maneira de resolver aquilo que não procurar um pronto socorro. A dor na barriga era intensa demais! O médico viu, olhou e me encaminhou para uma sala onde tinha uma cama para espera. As dores pioraram e gritei para uma enfermeira que precisavam fazer algo, nenhum medicamento para dor ainda tinham me dado. Nenhum remédio e a dor foi piorando. Quando meus gritos de dor começaram a incomodar muito, me levaram para outro quarto. E foi então que quando senti que ia desmaiar,  fechei os olhos, pensei em Deus, e ouvi um choro. As dores desapareceram. Indefeso, fraco, e assustado com o mundo, assim nascia uma criança e uma união para a vida toda. Dele posso ter me separado em corpo, mas meu espírito e minhas preocupações estão sempre com ele.”

Este milagre se repete todos os dias. Toda uma humanidade que se renova pelo gesto de doação das mulheres que geram a vida. No dia das mães, lembre-se dos nove meses que se tornaram um sentimento que não morre. Da pessoa que teve dificuldade para caminhar durante meses porque te carregava juntinho de você e de quem passou por dores fortes para que você pudesse respirar e viver. Se milagre significa algo maravilhoso ou extraordinário, milagre é sinônimo de ser mãe. Um milagre do qual todos nós participamos. 

Artigo da edição 265 do Jornal Gazeta de Contagem de 08/05/12 a 14/05/12