quarta-feira, 30 de maio de 2012

Dois encontros com o Diabo


Eu não queria aqueles encontros. E depois deles, nunca mais fui o mesmo... Tudo começa numa história muito antiga que conta que existia apenas o bem, formado por Deus e sua legião de anjos. Até que um se rebelou e o mau surgiu das mais variadas formas. Para alguns, o Diabo é apenas uma alegoria e, para outros, é um ser real, vivente que nos tenta a fazer escolhas erradas.

Eu morava numa cidade no interior de Minas Gerais, onde a vida simples enchia meus dias. Era médico e trabalhava em uma equipe do Programa de Saúde da Família em várias comunidades rurais onde fazíamos o tradicional trabalho preventivo, cuidando para que doenças como hipertensão e diabetes não virassem infarto, derrame, cegueira ou mesmo a morte. O Uno vermelho, velho e castigado cortava as estradas empoeiradas carregando vacinas que protegiam as crianças. Uma igrejinha ou uma sala de aula podiam virar um consultório, a única coisa que não aceitávamos eram crianças sem acompanhamento, mulheres sem fazer pré-natal, pessoas sem controlar a pressão arterial e o diabetes.

Ao final de uma manhã, quando o último paciente entrou, perguntei o que o trazia à consulta. A resposta dele foi que precisava de telhas para sua casa. Achei engraçado porque já tinha me acontecido de tudo na vida, menos ser confundido com um empregado de casa de construção. Disse que era médico e que não estava entendendo. Ele foi mais direto: “você sabe que a eleição está chegando e você é amigo do prefeito... Ele pode me ajudar e eu posso ajudá-lo”. Era uma pessoa oferecendo seu voto por telhas.

Com a derrota nas eleições, perdi o emprego e voltei para a capital. Aquela coisa de compra de voto ficou para traz. “Coisa de lugar pequeno e de um povo sem outras possibilidades”, pensei. Passado algum tempo, já em Belo Horizonte, conversando com uma pessoa sobre política, esta me disse que iria votar num candidato porque lhe devia três sacos de cimento. Diante do meu assombro, fez questão de explicar: “Veja bem, na verdade não foram três sacos de cimento, a pessoa me deu dinheiro e eu resolvi comprar os três sacos de cimento”.

Se o Diabo representa o surgimento do mau ou um ser que nos tenta a fazer o mau, pouco importa. Muitos de nossos males nascem não de políticos corruptos, mas de eleitores que os corrompem. Nascem de nosso desinteresse pela Política porque já vivemos tão ocupados acompanhando novela e futebol. Daqui pra frente, vamos lutar contra o Diabo? Não vamos vender nossos votos, vamos nos interessar pela política e pelos problemas e soluções de nossas comunidades... No futuro, contaremos como das trevas fez-se a luz...
Junte-se a nós por um mundo melhor!



Artigo publicado no Jornal "Gazeta de Contagem", edição 268, de 29 de maio a 4 de junho de 2012, que pode ser acessado em http://www.gazetadecontagem.com.br/index.php?option=com_flippingbook&view=book&id=38%3Aedicao-268-28052012&catid=2%3Agazeta-impresso&Itemid=3

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