Eu não queria aqueles encontros.
E depois deles, nunca mais fui o mesmo... Tudo começa numa história muito
antiga que conta que existia apenas o bem, formado por Deus e sua legião de
anjos. Até que um se rebelou e o mau surgiu das mais variadas formas. Para
alguns, o Diabo é apenas uma alegoria e, para outros, é um ser real, vivente
que nos tenta a fazer escolhas erradas.
Eu morava numa cidade no interior
de Minas Gerais, onde a vida simples enchia meus dias. Era médico e trabalhava
em uma equipe do Programa de Saúde da Família em várias comunidades rurais onde
fazíamos o tradicional trabalho preventivo, cuidando para que doenças como
hipertensão e diabetes não virassem infarto, derrame, cegueira ou mesmo a
morte. O Uno vermelho, velho e castigado cortava as estradas empoeiradas
carregando vacinas que protegiam as crianças. Uma igrejinha ou uma sala de aula
podiam virar um consultório, a única coisa que não aceitávamos eram crianças
sem acompanhamento, mulheres sem fazer pré-natal, pessoas sem controlar a
pressão arterial e o diabetes.
Ao final de uma manhã, quando o
último paciente entrou, perguntei o que o trazia à consulta. A resposta dele
foi que precisava de telhas para sua casa. Achei engraçado porque já tinha me
acontecido de tudo na vida, menos ser confundido com um empregado de casa de
construção. Disse que era médico e que não estava entendendo. Ele foi mais
direto: “você sabe que a eleição está chegando e você é amigo do prefeito...
Ele pode me ajudar e eu posso ajudá-lo”. Era uma pessoa oferecendo seu voto por
telhas.
Com a derrota nas eleições, perdi
o emprego e voltei para a capital. Aquela coisa de compra de voto ficou para
traz. “Coisa de lugar pequeno e de um povo sem outras possibilidades”, pensei. Passado
algum tempo, já em Belo Horizonte, conversando com uma pessoa sobre política,
esta me disse que iria votar num candidato porque lhe devia três sacos de
cimento. Diante do meu assombro, fez questão de explicar: “Veja bem, na verdade
não foram três sacos de cimento, a pessoa me deu dinheiro e eu resolvi comprar
os três sacos de cimento”.
Se o Diabo representa o
surgimento do mau ou um ser que nos tenta a fazer o mau, pouco importa. Muitos
de nossos males nascem não de políticos corruptos, mas de eleitores que os
corrompem. Nascem de nosso desinteresse pela Política porque já vivemos tão
ocupados acompanhando novela e futebol. Daqui pra frente, vamos lutar contra o
Diabo? Não vamos vender nossos votos, vamos nos interessar pela política e
pelos problemas e soluções de nossas comunidades... No futuro, contaremos como
das trevas fez-se a luz...
Junte-se a nós por um mundo
melhor!
Artigo publicado no Jornal "Gazeta de Contagem", edição 268, de 29 de maio a 4 de junho de 2012, que pode ser acessado em http://www.gazetadecontagem.com.br/index.php?option=com_flippingbook&view=book&id=38%3Aedicao-268-28052012&catid=2%3Agazeta-impresso&Itemid=3
Artigo publicado no Jornal "Gazeta de Contagem", edição 268, de 29 de maio a 4 de junho de 2012, que pode ser acessado em http://www.gazetadecontagem.com.br/index.php?option=com_flippingbook&view=book&id=38%3Aedicao-268-28052012&catid=2%3Agazeta-impresso&Itemid=3








