quarta-feira, 30 de maio de 2012

Dois encontros com o Diabo


Eu não queria aqueles encontros. E depois deles, nunca mais fui o mesmo... Tudo começa numa história muito antiga que conta que existia apenas o bem, formado por Deus e sua legião de anjos. Até que um se rebelou e o mau surgiu das mais variadas formas. Para alguns, o Diabo é apenas uma alegoria e, para outros, é um ser real, vivente que nos tenta a fazer escolhas erradas.

Eu morava numa cidade no interior de Minas Gerais, onde a vida simples enchia meus dias. Era médico e trabalhava em uma equipe do Programa de Saúde da Família em várias comunidades rurais onde fazíamos o tradicional trabalho preventivo, cuidando para que doenças como hipertensão e diabetes não virassem infarto, derrame, cegueira ou mesmo a morte. O Uno vermelho, velho e castigado cortava as estradas empoeiradas carregando vacinas que protegiam as crianças. Uma igrejinha ou uma sala de aula podiam virar um consultório, a única coisa que não aceitávamos eram crianças sem acompanhamento, mulheres sem fazer pré-natal, pessoas sem controlar a pressão arterial e o diabetes.

Ao final de uma manhã, quando o último paciente entrou, perguntei o que o trazia à consulta. A resposta dele foi que precisava de telhas para sua casa. Achei engraçado porque já tinha me acontecido de tudo na vida, menos ser confundido com um empregado de casa de construção. Disse que era médico e que não estava entendendo. Ele foi mais direto: “você sabe que a eleição está chegando e você é amigo do prefeito... Ele pode me ajudar e eu posso ajudá-lo”. Era uma pessoa oferecendo seu voto por telhas.

Com a derrota nas eleições, perdi o emprego e voltei para a capital. Aquela coisa de compra de voto ficou para traz. “Coisa de lugar pequeno e de um povo sem outras possibilidades”, pensei. Passado algum tempo, já em Belo Horizonte, conversando com uma pessoa sobre política, esta me disse que iria votar num candidato porque lhe devia três sacos de cimento. Diante do meu assombro, fez questão de explicar: “Veja bem, na verdade não foram três sacos de cimento, a pessoa me deu dinheiro e eu resolvi comprar os três sacos de cimento”.

Se o Diabo representa o surgimento do mau ou um ser que nos tenta a fazer o mau, pouco importa. Muitos de nossos males nascem não de políticos corruptos, mas de eleitores que os corrompem. Nascem de nosso desinteresse pela Política porque já vivemos tão ocupados acompanhando novela e futebol. Daqui pra frente, vamos lutar contra o Diabo? Não vamos vender nossos votos, vamos nos interessar pela política e pelos problemas e soluções de nossas comunidades... No futuro, contaremos como das trevas fez-se a luz...
Junte-se a nós por um mundo melhor!



Artigo publicado no Jornal "Gazeta de Contagem", edição 268, de 29 de maio a 4 de junho de 2012, que pode ser acessado em http://www.gazetadecontagem.com.br/index.php?option=com_flippingbook&view=book&id=38%3Aedicao-268-28052012&catid=2%3Agazeta-impresso&Itemid=3

domingo, 27 de maio de 2012

Pense, fale, aja


Pense, fale, aja

“Pense sempre coisas positivas e elas vão acontecer.” Era isso que sempre ouvia de minha tia. “Primeiro, o mundo é construído em nossa mente e depois no mundo.” Veja bem, ela não queria dizer que não é importante trabalhar duro para fazer as coisas, mas que primeiro as coisas devem ser bem planejadas. Se nós idealizarmos coisas ruins, como poderá sair alguma coisa boa? Este é o mundo onde vivemos. Antes daquela festa linda em que dois seres atrelam seu futuro diante de uma autoridade (padre, pastor ou juiz), muitas e muitas conversas, ideias e sonhos são divididos. É assim que se constitui a família onde se alicerça a sociedade. É, meu amigo, a família é o tijolo onde se constrói a sociedade. Mesmo entre pessoas tão próximas e que se amam, sempre existirá um que pensa uma coisa e outro que pensa outra. Ás vezes, brigas. Assim caminha a humanidade.

Na vida em sociedade, não é diferente. Nunca vamos encontrar uma associação que segue exatamente tudo aquilo que pensamos e queremos. É exatamente ai onde mora o perigo. Lembra que eu disse que tudo começa no plano das ideias? Agora eu estou dizendo que as pessoas pensam diferente e que o consenso é sempre algo muito difícil de conseguir. Portanto, se você apenas quiser seguir grupos de pessoas que pensam exatamente igual a você, amigo, você vai caminhar por esta vida sozinho. E estamos caminhando sozinhos... Nossas associações de moradores do bairro vivem às moscas... Nosso interesse por política é quase zero... Não temos paciência para ir a uma reunião do condomínio.... E assim, ideias não surgem, e coisas não acontecem. Pessoas sozinhas com ideias maravilhosas são apenas pessoas sozinhas e nada mais.

Vamos começar de novo e, desta vez, fazer da forma certa. Você vai ser tolerante com quem não pensa igual a você, tratando-os como gostaria de ser tratado. Vai entender que tudo na vida é uma construção coletiva, desde negociar a hora da mamada com sua mãe, quando tinha uma hora de vida, até decidir quem vai pagar suas dívidas enquanto você estiver mostrando seu passaporte para São Pedro.  O seu maior aliado também é seu maior inimigo. Existem muitas pessoas iguais a você, querendo sonhar, querendo dividir suas ideias, querendo construir um novo mundo. Você só conseguirá com elas, não estrague isso. Não perca seu tempo com o que não constrói. Não perca tempo com seu egoísmo ou com sua sensação de que sabe mais que os outros!

Participe de sua associação de bairro. Informe-se sobre os políticos de sua cidade e envie suas ideias para eles. Converse com seu vizinho sobre como melhorar as coisas onde você vive. Não desista quando fecharem a porta na sua cara. Mostre seu valor!
Junte-se a nós por um mundo melhor!

Artigo da edição 267 do Jornal Gazeta de Contagem de 22/05/12 a 28/05/12


Liberdade



Liberdade

Você abriria mão da sua liberdade? Aceitaria alguém controlando cada passo da sua vida? Certamente não. Começamos a vida sendo expulsos do aconchego materno, levamos um tapa do obstetra de plantão, somos então pesados, medidos e nossa impressão digital é colhida na sala de parto (Tudo bem pensado por aquele cara que chamam de médico. Primeiro ele usa uma máscara para ficar difícil de reconhecer e depois já tem nossa digital para nos acusar. Cobrar aquele tapa no bumbum de volta é impossível, melhor deixar pra lá.). Somos colocados no berço ou na cadeirinha, e nossos pais tomam todas as decisões (chegam a nos vestir de marujos aos  6 meses de idade! Quem aguenta?). Somos levados a parquinhos ou a shoppings lotados muito tempo antes de podermos comprar o que nos agrada.

Crescendo vamos aprendendo a escolher as coisas. Nosso primeiro grande trunfo é escolher a hora de fazer xixi e poder parar de usar fraldas.  Finalmente chegamos à escola, vamos escolhendo a matéria que gostamos e não gostamos. O fim do ciclo de estudos coincide com o primeiro emprego e com este temos dinheiro (é quando descobrimos que o mês é muito longo e que o dinheiro acaba muito antes). Escolhemos a namorada, noivamos e casamos (alguns casam sem conhecer a sogra. Pena ou sorte? Você decide).
Olhando assim, a vida é uma caminhada até previsível. Mas existem lobos te esperando no caminho da vovozinha. Um dos piores são as drogas. A história se repete no consultório médico, mas não é a mesma que contei antes. Ela começa com o experimentar, prossegue por evitar conversas ‘caretas’ e termina no vício, na escravidão. O sujeito passa a viver em função das drogas. São elas que decidem tudo na sua vida. E a primeira coisa que elas decidem é que você deve se afastar da própria família. Família e drogas não combinam. São inimigas mortais. Uma sempre quer que você abandone a outra. Os verdadeiros amigos também desaparecem, seja porque não querem ver você afundando, seja porque afundaram e morreram numa overdose. E a vida segue... ou não.

Normalmente, as famílias adoecem com o drogado. Pais se separam. A tranquilidade financeira desaparece junto com televisão, celular e outros aparelhos que se ficarem ao alcance viram mais um ‘barato’ na mão. Aparece a depressão, a ansiedade, o medo. “Será que meu filho volta para casa?” A grande dúvida que fica naquele ser que antes nos foi o aconchego materno, o lugar de onde saímos para levar a palmada do médico.

Para nossa alegria, existe um Ser que comanda o universo. E não importa que nome dão a Ele, pode ser Deus, Alá, Javé, Jeová, o importante é que nestes momentos de dor e desespero, Ele aparece. Nestes momentos, muitas mães são supridas pelo mesmo elemento que manteve Maria durante o suplício de Jesus, quando o mundo inteiro batia e cuspia no ser amado que estava a caminho da morte. No caso das drogas, a morte não é o único caminho. Existe a esperança e o tratamento. Existe a lágrima, mas também pode existir o sorriso.

E quem nunca experimentou as drogas, continue sem experimentar. Cresça e se torne cada dia mais independente. Torne-se o orgulho e o arrimo da família. Repita no coração as frases: drogas, nem morto.
Mas se você está no desespero e escuridão, abra a janela para a luz entrar. Sim, todas as manhas o sol chega para nos aquecer. É a esperança que nos dá a certeza que estamos vivos.
Artigo da edição 266 do Jornal Gazeta de Contagem de 15/05/12 a 21/05/12


O Milagre


O Milagre

A vida que traz cabelos brancos é a mesma que nos deixa muitas histórias para contar. Dificilmente um médico passou pela vida e não viu um milagre. É certo que temos que guardar segredo de tudo aquilo que ouvimos e vemos no exercício da profissão, e para isso lançamos mão de muitos recursos como, para ódio das feministas, dizer “o paciente” num sentido que não significa exatamente que seja um homem. Também mudamos a idade, contando um caso de um jovem como se fosse um velho ou de um velho como se tivesse a flor da idade. Milagre é outra dessas palavras interessantes. Sempre temos a tendência a acreditar que é algo sobrenatural, uma influência de Deus, uma intercessão de um santo (tive que procurar um dicionário para poder escrever intercessão sem errar). Milagre, na verdade, vem do latim miracùlum, e significava inicialmente prodígio, maravilha, coisa prodigiosa, extraordinária'.

Vou contar um milagre da mesma forma que eu o vivenciei, ou seja, usando a primeira pessoa, contando para vocês da mesma forma que o paciente me contou: “Tudo começou com uma dor de cabeça sem sentido. Não estava nervoso, nem preocupado com nada. E aquela dor de cabeça que nunca tinha sentido apareceu. Em seguida comecei a ter enjoos e vomitar. Meu Deus! Qualquer cheiro mais forte e meu estômago fraco já se entregava. Uma fraqueza me invadiu. Vivia cansado e dormia muito mais que o habitual. Para meu espanto, minha barriga começou a inchar. Enjoado, vomitando quase todos os dias, e minha barriga inchando. Não fazia sentido. Mas a balança denunciava aquilo que meus olhos não queriam ver. A barriga inchada tornou minha respiração difícil, tinha que respirar mais rápido e mais superficialmente. Minha capacidade de concentração, sempre tão boa, sumira. Meu andar modificou, se tornando lento e eu me desequilibrava toda hora. Vez por outra, sentia uma dor na barriga que, do mesmo jeito que vinha, ia embora. Tudo era muito estranho e eu estava sempre muito assustado e com medo de procurar um médico. Um dia, as dores se tornaram muito forte, nem tinham ido embora e já voltavam e não encontrei outra maneira de resolver aquilo que não procurar um pronto socorro. A dor na barriga era intensa demais! O médico viu, olhou e me encaminhou para uma sala onde tinha uma cama para espera. As dores pioraram e gritei para uma enfermeira que precisavam fazer algo, nenhum medicamento para dor ainda tinham me dado. Nenhum remédio e a dor foi piorando. Quando meus gritos de dor começaram a incomodar muito, me levaram para outro quarto. E foi então que quando senti que ia desmaiar,  fechei os olhos, pensei em Deus, e ouvi um choro. As dores desapareceram. Indefeso, fraco, e assustado com o mundo, assim nascia uma criança e uma união para a vida toda. Dele posso ter me separado em corpo, mas meu espírito e minhas preocupações estão sempre com ele.”

Este milagre se repete todos os dias. Toda uma humanidade que se renova pelo gesto de doação das mulheres que geram a vida. No dia das mães, lembre-se dos nove meses que se tornaram um sentimento que não morre. Da pessoa que teve dificuldade para caminhar durante meses porque te carregava juntinho de você e de quem passou por dores fortes para que você pudesse respirar e viver. Se milagre significa algo maravilhoso ou extraordinário, milagre é sinônimo de ser mãe. Um milagre do qual todos nós participamos. 

Artigo da edição 265 do Jornal Gazeta de Contagem de 08/05/12 a 14/05/12


Você é o patrão


Você é o patrão

Tive um sonho estranho e gostaria de dividir com vocês. Começa comigo chegando ao meu local de trabalho meia hora mais cedo (o que é raro com o trânsito de hoje, e eu nem percebi que estava sonhando!). Fui até a sala do meu chefe, abri a porta, sentei em sua cadeira e espichei minhas pernas em cima da mesa. Abri a gaveta e lá estavam seus charutos preferidos. Peguei um e comecei a fumar (só em sonho eu fumo, porque em sonho, cigarros e charutos não causam enfisema e infarto, coisas que só aceito ter depois dos 90 anos). De repente, olho para a porta e lá está o meu chefe me olhando. Eu ali, fumando e com os pés em cima da mesa. Para minha surpresa, ele sorri e pergunta se pode me ajudar em alguma coisa. Eu disparo: “quero a metade do seu salário todo mês, sem precisar vir trabalhar”. Ele disse: “Tudo bem”. Fiquei assombrado no sonho. Como assim, tudo bem? Você vai me dar metade do que ganha e tudo bem? Ele respondeu de novo: “tudo bem, metade do meu salário vai pro seu bolso e eu não vou importuná-lo. Utilize-o como quiser”. Não acreditei. Aquele não era meu chefe. Então eu disse: “ok, mas também vou querer metade do salário do seu chefe”. “Estará na sua conta no dia do pagamento”. Não estava acreditando naquilo. Comecei a pensar mais alto e disse: “Vou querer metade do salário de todos que trabalham nesta empresa, na minha conta, no dia do pagamento, e não vou dar explicações a ninguém sobre o que vou fazer com este dinheiro”. Ele disse: “Assim será feito.” E havia sinceridade nas palavras dele.

Pensando em todo aquele dinheiro, quando estava me levantando da cadeira, minhas pernas até tremiam. Não precisava mais trabalhar, ninguém me cobraria nada e metade dos salários da empresa viria para o meu bolso. Saindo pela porta da sala do meu chefe, encontrei um amigo e senti que todo aquele deslumbramento ia se desfazer. Após os cumprimentos formais, contei a novidade: “o chefe acabou de me dizer que metade do salário de todos, inclusive o seu, virá para a minha conta todo mês e sem nenhuma pergunta”. Já estava me preparando para ver um amigo doce virar um leão, mas ele simplesmente olhou para mim e disse: “ok”.

Então, eu já estava sentado na cadeira do prefeito. Não me pergunte como fui parar lá. Estava novamente sentado, com os pés na mesa e tudo igual. Ele, o prefeito, chegou, o diálogo se repetiu e eu saí dali com um acerto de receber metade do salário de todos que trabalhavam na prefeitura.

Pela secura do ar, senti que agora estava em Brasília, no Banco Central, mais precisamente na sala do presidente do Banco Central e adivinhe. Isso mesmo. Metade dos salários dos bancários viria para a minha conta, sem nenhuma pergunta. Estava pensando no iate, na Ferrari, naquela viagem na Europa, naquele apartamento novo, quando percebi como o mundo tinha se tornado tão burro. Como podem passar metade do salário das pessoas para outra pessoa e não se interessarem pelo que este fará com o dinheiro? Como estas pessoas são burras, passivas, cordeirinhos?

Foi quando eu acordei. Eu sou o patrão que dá 50% do salário em impostos para o governo e não me interesso por política. Eu sou o dono do banco que passa metade do salário no dia do pagamento e não fico indignado com o que será feito com este dinheiro. E você também não é? Quando trabalhamos, recebemos uma parte do dinheiro com o qual realizamos os nossos projetos pessoais: uma casa confortável (mesmo que sem luxo), uma alimentação adequada (mesmo que apenas o essencial), quem sabe um carro para fugir dos ônibus, roupas. Tudo para você e sua família. Este é o dinheiro que você recebe para cuidar da porta da sua casa para dentro. E existe uma parte que é para cuidar da sua porta para fora. São os impostos que você paga todo mês. Este dinheiro serve aos nossos projetos de comunidade e civilização. Quando você sai da porta da sua casa e a rua está toda esburacada ou bem cuidada, não há caridade de um ser superior, é o seu dinheiro que está ou deveria estar ali. Na saúde, para que as pessoas possam viver, adoecer e até morrer com dignidade. Na escola, para que nossa população seja a cada dia mais educada e preparada para a vida em sociedade. Na praça do seu bairro, onde crianças podem brincar e os idosos podem descansar os pesados anos de vida dura do passado. Por que será que você anda todo amassado no ônibus, se paga pelo serviço? Este artigo é apenas para te lembrar de que você, com seu título de eleitor, é o patrão que dá metade do seu salário para o governo cuidar de tudo que está da sua porta para a rua. Se você pensou em metade do salário da sua firma e achou muito, agora pense na metade do salário de sua cidade! A carga de tributos no Brasil é de 35% de tudo que produzimos (o chamado PIB).  É muito dinheiro. Se você não vive numa cidade muito boa, é muito mais porque você não se preocupa com o que é feito com o seu dinheiro, do que com a falta dele. Dinheiro tem. Precisamos de cidadãos. Precisamos de cidadania.

Eu acordei. E você?

Junte-se a nós por um mundo melhor dentro e fora de casa!  


Artigo da edição 264 do Jornal Gazeta de Contagem de 01/05/12 a 07/05/12


Exercite seu corpo e sua mente


Exercite seu corpo e sua mente

Um dia, fui com minha vó comprar uma televisão. O vendedor mostrou várias TVs e ficou surpreso com a única exigência dela: “não pode ter controle remoto”. Mesmo que fosse mais cara, minha avó foi taxativa, não queria nada que tivesse controle remoto. Quando perguntado pelo vendedor o motivo, ela disse que ainda era o único exercício que fazia, sair do sofá e ir até a televisão para mudar o canal. Velhinha mentirosa. A verdade é que ela não suportava mais o meu avô trocando o canal a cada intervalo comercial e resolveu comprar a sua própria televisão com as sobras do dinheiro das compras, que ela guardava cuidadosamente numa bolsinha no armário da cozinha, atrás da vasilha de arroz. A situação realmente era chata, estávamos sempre todos reunidos lá assistindo televisão e, de repente, o mocinho que ia beijar a moça virava uma propaganda de carro... Pior era quando ele dormia assistindo televisão e o programa mudava e éramos obrigados a assistir porque o controle remoto estava repousando em cima de sua barriga e qualquer movimento para pegá-lo poderia terminar num assassinato (ainda tem gente que diz: “bons tempos”).
Depois de adulto, não é que leio vários artigos falando sobre as engenhocas modernas e sua relação com a obesidade. Não é apenas o controle remoto, mas também o celular que está ao nosso lado na cama, o carro. Um passeio no shopping e lá está a escada rolante... (interessante o quanto ficamos revoltados porque ela sempre está quebrada, a nosso benefício). Não precisa cozinhar, a pizza vem pelo motoboy. E aquela fugida para ir ao banco? Morreu! Hoje você acessa o banco sentado no sofá da sua casa (só não mudou aqueles números vermelhos escritos depois da expressão: “saldo atual”).
Com estes avanços da tecnologia, a vida ficou mais fácil e mais perigosa. O risco da obesidade, da hipertensão (pressão alta), do diabetes e de suas complicações aumentou. Alguns truques podem funcionar, como descer alguns pontos antes de chegar ao trabalho ou, antes de chegar em casa e caminhar. Não se esqueça de cuidar para estar usando sapatos confortáveis e roupas leves, beber água antes e após sair para o exercício, e começar devagar. Levar outras pessoas junto para ajudar a um animar o outro.
Se você tem um marido que muda o canal constantemente, pode comprar uma televisão com controle remoto.... Só cuide para ele estar sempre na sua mão ou sem as pilhas. A experiência da minha avó pertence ao passado.

envie sugestões de temas para: jjannuzzi@terra.com.br

Pressão


Pressão

Sabemos que nosso sangue é precioso. Tão precioso que até achamos que passamos para os nossos filhos, dizendo o famoso: ‘sangue do meu sangue’. O sangue para andar em nosso corpo precisa ter uma pressão, do contrário, ficaria parado e nós morreríamos. Quem cria esta pressão é o coração. Quando o coração para, a pressão some e nós vamos para o lado de lá (a menos que uma equipe médica venha te dar um soco no coração, massageie seu peito e não deixe você abandonar esta vida dura. Ai o seu coração vai voltar a bater e você voltará a ter pressão arterial).
Quando se mede a pressão de alguém, faz-se uma avaliação bem rápida e simples de como nosso coração está trabalhando. Na natureza, sempre o normal é um valor que nem seja muito alto nem baixo.   Se nossa pressão está maior do que o normal, significa que nosso coração está trabalhando mais do que aquilo para o qual foi projetado e, portanto, a vida útil desta ‘máquina’ vai diminuir. Algumas pessoas não sabem, mas a pressão alta ataca o cérebro e pode levar ao derrame (ou AVC como chamam os médicos), também os rins levando à sua morte e necessidade de hemodiálise e até nossos olhos, levando à cegueira. Tudo isso é evitado com o diagnóstico precoce e um acompanhamento periódico. O tratamento começa com um equilíbrio daquilo que comemos, com a redução do sal, passando por exercícios físicos prazerosos (acredite, eles existem) e se não resolver, o uso de medicamentos todos os dias. Mas atenção, o medicamento que sua vizinha usa para controlar a pressão pode não ser o melhor para você. Espere que um médico diga o remédio que você deve tomar.
A pressão alta normalmente não dá sintomas. Não é aquela dorzinha na nuca no final do dia um sinal de pressão alta. Isso é sinal da pressão que seu chefe está fazendo na sua vida e não o seu coração. 
Antes que eu esqueça, a pressão alta significa um estado no qual ela fica permanentemente alta, quando medida várias vezes. Você foi ao médico na semana passada e ela estava aumentada. Foi na farmácia ontem e ela estava aumentada. A sua amiga que sabe medir pressão viu que ela continua aumentada. Uma medida de pressão alterada seguida de outras medidas normais significa que você não tem pressão alta. Pode ser simplesmente uma descarga de adrenalina... Lembre-se disso para não medir a pressão após receber a conta daquela compra que você fez no mês passado, ou ver o último escândalo na televisão- Raiva libera adrenalina que é uma substância no nosso corpo que levanta a pressão.
Uma vida bem vivida faz bem para o seu coração. Procure ser feliz. Cuide da sua alimentação, esteja sempre em movimento, cuide de fazer “check up” periódicos perto do seu aniversário e invista seu tempo livre na família e nos amigos. Pior que morrer é não ter vivido.


A Pergunta


A Pergunta

Uma  grande dificuldade do MÉDICO é responder a uma pergunta que todos fazem..... Ficou curioso em saber qual é a pergunta? Então não vou falar agora ... Vou curtir a sua curiosidade .... Vou saboreá-la como um vinho precioso... Sim,  se você lê o que escrevo, para mim, este momento é especial.....

Então vamos construir o nosso cenário... O médico sentado de um lado da mesa, o paciente do outro.... Um encontro que tanto pode ser o primeiro quanto pode ser mais um em anos e anos de convivência .... E vem a pergunta..... Aquela pergunta que eu estou segurando para manter seu foco neste texto.... O médico está ali, o paciente está ali... Ali também está a mesa.... E sai a pergunta....
 O médico termina de olhar os exames, com os olhos focados nas letrinhas daquele papel do laboratório.... E gastam papel no laboratório... É uma folha para cada exame... Quem aguenta esperar o médico folhear página por página ... Queremos fazer a pergunta, e o médico folheando aquele monte de papéis.... E os olhos do médico fixos no papel e os olhos do paciente fixos nos olhos do médico.... A pergunta presa... Quer sair, mas não pode interromper o médico...

Então o médico olha para o paciente e a pergunta vem: “eu estou bem, doutor?”. Esta é a pergunta mais difícil de toda a medicina. É a própria definição do que é saúde e do que é doença. Saúde é simplesmente não ter doença? É simplesmente ter um monte de exames que só o médico entende (na verdade, todo mundo abre aquele saquinho e tira o grampinho... Uns o coloca de volta com cuidado para parecer que não olharam... Maldito eletro do coração que são só risquinhos....). Afinal, o que é saúde? É ter o exame de AIDS negativo? Quantas pessoas têm AIDS e são felizes? Quantas não têm e vivem na tristeza, no choro fácil, na falta de coragem para fazer as coisas?

Saúde é mais do que a falta de doença. Saúde é ser feliz..... Saúde é felicidade.... Opa... E felicidade, o que é? É outra palavra difícil para explicar, mas que cada um sente batendo no peito... Talvez seja o olhar da mãe sobre o berço de seu neném que dorme com tranquilidade.... Talvez seja poder dizer palavras de amor ..... Para muitos é poder louvar a existência de Deus.... Você precisa saber o que te faz feliz... e a saúde vem atrás....

Da próxima vez que você for ao médico para saber se sua saúde está bem, espero que você chegue com a resposta e não com a pergunta.....E que a resposta seja: Sim, tenho saúde porque sou feliz.




Mova-se


Mova-se

Fiquei alguns dias pensando em como começar uma coluna para tratar de saúde. Grandes articulistas sempre no primeiro artigo olharam em volta e pensaram: ‘o que vou escrever’? Depois, as pessoas enviam emails fazendo críticas ou questionamentos (eu espero que me mandem) e a coisa vira uma conversa...

Tenho 39 anos de idade, quase metade dedicado à medicina. Nesse período, vi crianças nascerem e fechei os olhos, pela última vez, de alguns pacientes.... No final, tudo o que somos e significamos vai ficar entre o dia em que abrimos os olhos a primeira vez, e o dia em que fechamos os olhos pela última vez...

Por isso, mova-se. Quando foi a última vez que você sorriu? Então sorria agora.... Quando foi a última vez que você olhou para o céu e viu suas belezas... Tudo de graça, ao seu alcance.... Pois olhe... Quando foi a última vez que você disse para quem ama: eu te amo? Diga agora...  Abrace alguém hoje....Dê uma flor... Dê um sorriso... Dê uma palavra de carinho.... Nunca vamos saber quanto tempo nos resta....

Se cada um fizer isso, você ao virar a cabeça para o lado e verá um sorriso... Vai tentar chegar na cozinha e receber um abraço.....  Antes de dormir, alguém vai sussurrar no seu ouvido: ‘eu te amo’.....

Então quando chegar seu momento de fechar os olhos pela última vez, você irá abri-los e verá Deus.... E poderá dizer: “não tive o dinheiro que queria, não tive a melhor vida que sonhava, mas de minha boca só saíram palavras de amor, de meus olhos só saíram luzes de ternura.... enfim, de tudo de ruim que havia no mundo e na vida, eu fiz do mundo, um lugar melhor.....”

Mova-se....  Se você gostou deste primeiro artigo,mande um email... e se não gostou, mande dois.... Porque como dizia Santo Agostinho: “Prefiro os que me criticam porque me corrigem, aos que me bajulam porque me corrompem...”