Você é o patrão
Tive um sonho estranho e gostaria de dividir com vocês.
Começa comigo chegando ao meu local de trabalho meia hora mais cedo (o que é
raro com o trânsito de hoje, e eu nem percebi que estava sonhando!). Fui até a
sala do meu chefe, abri a porta, sentei em sua cadeira e espichei minhas pernas
em cima da mesa. Abri a gaveta e lá estavam seus charutos preferidos. Peguei um
e comecei a fumar (só em sonho eu fumo, porque em sonho, cigarros e charutos
não causam enfisema e infarto, coisas que só aceito ter depois dos 90 anos). De
repente, olho para a porta e lá está o meu chefe me olhando. Eu ali, fumando e
com os pés em cima da mesa. Para minha surpresa, ele sorri e pergunta se pode
me ajudar em alguma coisa. Eu disparo: “quero a metade do seu salário todo mês,
sem precisar vir trabalhar”. Ele disse: “Tudo bem”. Fiquei assombrado no sonho.
Como assim, tudo bem? Você vai me dar metade do que ganha e tudo bem? Ele
respondeu de novo: “tudo bem, metade do meu salário vai pro seu bolso e eu não
vou importuná-lo. Utilize-o como quiser”. Não acreditei. Aquele não era meu
chefe. Então eu disse: “ok, mas também vou querer metade do salário do seu
chefe”. “Estará na sua conta no dia do pagamento”. Não estava acreditando
naquilo. Comecei a pensar mais alto e disse: “Vou querer metade do salário de
todos que trabalham nesta empresa, na minha conta, no dia do pagamento, e não
vou dar explicações a ninguém sobre o que vou fazer com este dinheiro”. Ele
disse: “Assim será feito.” E havia sinceridade nas palavras dele.
Pensando em todo aquele dinheiro, quando estava me levantando
da cadeira, minhas pernas até tremiam. Não precisava mais trabalhar, ninguém me
cobraria nada e metade dos salários da empresa viria para o meu bolso. Saindo
pela porta da sala do meu chefe, encontrei um amigo e senti que todo aquele
deslumbramento ia se desfazer. Após os cumprimentos formais, contei a novidade:
“o chefe acabou de me dizer que metade do salário de todos, inclusive o seu,
virá para a minha conta todo mês e sem nenhuma pergunta”. Já estava me
preparando para ver um amigo doce virar um leão, mas ele simplesmente olhou
para mim e disse: “ok”.
Então, eu já estava sentado na cadeira do prefeito. Não me
pergunte como fui parar lá. Estava novamente sentado, com os pés na mesa e tudo
igual. Ele, o prefeito, chegou, o diálogo se repetiu e eu saí dali com um
acerto de receber metade do salário de todos que trabalhavam na prefeitura.
Pela secura do ar, senti que agora estava em Brasília, no
Banco Central, mais precisamente na sala do presidente do Banco Central e
adivinhe. Isso mesmo. Metade dos salários dos bancários viria para a minha
conta, sem nenhuma pergunta. Estava pensando no iate, na
Ferrari, naquela viagem na Europa, naquele apartamento novo, quando percebi
como o mundo tinha se tornado tão burro. Como podem passar metade do salário
das pessoas para outra pessoa e não se interessarem pelo que este fará com o
dinheiro? Como estas pessoas são burras, passivas, cordeirinhos?
Foi quando eu acordei. Eu sou o
patrão que dá 50% do salário em impostos para o governo e não me interesso por
política. Eu sou o dono do banco que passa metade do salário no dia do
pagamento e não fico indignado com o que será feito com este dinheiro. E você
também não é? Quando trabalhamos, recebemos uma parte do dinheiro com o qual
realizamos os nossos projetos pessoais: uma casa confortável (mesmo que sem
luxo), uma alimentação adequada (mesmo que apenas o essencial), quem sabe um
carro para fugir dos ônibus, roupas. Tudo para você e sua família. Este é o dinheiro
que você recebe para cuidar da porta da sua casa para dentro. E existe uma
parte que é para cuidar da sua porta para fora. São os impostos que você paga
todo mês. Este dinheiro serve aos nossos projetos de comunidade e civilização.
Quando você sai da porta da sua casa e a rua está toda esburacada ou bem
cuidada, não há caridade de um ser superior, é o seu dinheiro que está ou
deveria estar ali. Na saúde, para que as pessoas possam viver, adoecer e até
morrer com dignidade. Na escola, para que nossa população seja a cada dia mais
educada e preparada para a vida em sociedade. Na praça do seu bairro, onde
crianças podem brincar e os idosos podem descansar os pesados anos de vida dura
do passado. Por que será que você anda todo amassado no ônibus, se paga pelo
serviço? Este artigo é apenas para te lembrar de que você, com seu título de
eleitor, é o patrão que dá metade do seu salário para o governo cuidar de tudo
que está da sua porta para a rua. Se você pensou em metade do salário da sua
firma e achou muito, agora pense na metade do salário de sua cidade! A carga de
tributos no Brasil é de 35% de tudo que produzimos (o chamado PIB). É muito dinheiro. Se você não vive numa
cidade muito boa, é muito mais porque você não se preocupa com o que é feito
com o seu dinheiro, do que com a falta dele. Dinheiro tem. Precisamos de
cidadãos. Precisamos de cidadania.
Eu acordei. E você?
Junte-se a nós por um mundo
melhor dentro e fora de casa!
Artigo da edição 264 do Jornal Gazeta de Contagem de 01/05/12 a 07/05/12

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