domingo, 27 de maio de 2012

O Milagre


O Milagre

A vida que traz cabelos brancos é a mesma que nos deixa muitas histórias para contar. Dificilmente um médico passou pela vida e não viu um milagre. É certo que temos que guardar segredo de tudo aquilo que ouvimos e vemos no exercício da profissão, e para isso lançamos mão de muitos recursos como, para ódio das feministas, dizer “o paciente” num sentido que não significa exatamente que seja um homem. Também mudamos a idade, contando um caso de um jovem como se fosse um velho ou de um velho como se tivesse a flor da idade. Milagre é outra dessas palavras interessantes. Sempre temos a tendência a acreditar que é algo sobrenatural, uma influência de Deus, uma intercessão de um santo (tive que procurar um dicionário para poder escrever intercessão sem errar). Milagre, na verdade, vem do latim miracùlum, e significava inicialmente prodígio, maravilha, coisa prodigiosa, extraordinária'.

Vou contar um milagre da mesma forma que eu o vivenciei, ou seja, usando a primeira pessoa, contando para vocês da mesma forma que o paciente me contou: “Tudo começou com uma dor de cabeça sem sentido. Não estava nervoso, nem preocupado com nada. E aquela dor de cabeça que nunca tinha sentido apareceu. Em seguida comecei a ter enjoos e vomitar. Meu Deus! Qualquer cheiro mais forte e meu estômago fraco já se entregava. Uma fraqueza me invadiu. Vivia cansado e dormia muito mais que o habitual. Para meu espanto, minha barriga começou a inchar. Enjoado, vomitando quase todos os dias, e minha barriga inchando. Não fazia sentido. Mas a balança denunciava aquilo que meus olhos não queriam ver. A barriga inchada tornou minha respiração difícil, tinha que respirar mais rápido e mais superficialmente. Minha capacidade de concentração, sempre tão boa, sumira. Meu andar modificou, se tornando lento e eu me desequilibrava toda hora. Vez por outra, sentia uma dor na barriga que, do mesmo jeito que vinha, ia embora. Tudo era muito estranho e eu estava sempre muito assustado e com medo de procurar um médico. Um dia, as dores se tornaram muito forte, nem tinham ido embora e já voltavam e não encontrei outra maneira de resolver aquilo que não procurar um pronto socorro. A dor na barriga era intensa demais! O médico viu, olhou e me encaminhou para uma sala onde tinha uma cama para espera. As dores pioraram e gritei para uma enfermeira que precisavam fazer algo, nenhum medicamento para dor ainda tinham me dado. Nenhum remédio e a dor foi piorando. Quando meus gritos de dor começaram a incomodar muito, me levaram para outro quarto. E foi então que quando senti que ia desmaiar,  fechei os olhos, pensei em Deus, e ouvi um choro. As dores desapareceram. Indefeso, fraco, e assustado com o mundo, assim nascia uma criança e uma união para a vida toda. Dele posso ter me separado em corpo, mas meu espírito e minhas preocupações estão sempre com ele.”

Este milagre se repete todos os dias. Toda uma humanidade que se renova pelo gesto de doação das mulheres que geram a vida. No dia das mães, lembre-se dos nove meses que se tornaram um sentimento que não morre. Da pessoa que teve dificuldade para caminhar durante meses porque te carregava juntinho de você e de quem passou por dores fortes para que você pudesse respirar e viver. Se milagre significa algo maravilhoso ou extraordinário, milagre é sinônimo de ser mãe. Um milagre do qual todos nós participamos. 

Artigo da edição 265 do Jornal Gazeta de Contagem de 08/05/12 a 14/05/12


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