O Milagre
A
vida que traz cabelos brancos é a mesma que nos deixa muitas histórias para
contar. Dificilmente um médico passou pela vida e não viu um milagre. É certo
que temos que guardar segredo de tudo aquilo que ouvimos e vemos no exercício
da profissão, e para isso lançamos mão de muitos recursos como, para ódio das
feministas, dizer “o paciente” num sentido que não significa exatamente que
seja um homem. Também mudamos a idade, contando um caso de um jovem como se
fosse um velho ou de um velho como se tivesse a flor da idade. Milagre é outra
dessas palavras interessantes. Sempre temos a tendência a acreditar que é algo
sobrenatural, uma influência de Deus, uma intercessão de um santo (tive que
procurar um dicionário para poder escrever intercessão sem errar). Milagre, na
verdade, vem do latim miracùlum, e significava inicialmente prodígio, maravilha, coisa
prodigiosa, extraordinária'.
Vou
contar um milagre da mesma forma que eu o vivenciei, ou seja, usando a primeira
pessoa, contando para vocês da mesma forma que o paciente me contou: “Tudo
começou com uma dor de cabeça sem sentido. Não estava nervoso, nem preocupado
com nada. E aquela dor de cabeça que nunca tinha sentido apareceu. Em seguida
comecei a ter enjoos e vomitar. Meu Deus! Qualquer cheiro mais forte e meu estômago
fraco já se entregava. Uma fraqueza me invadiu. Vivia cansado e dormia muito
mais que o habitual. Para meu espanto, minha barriga começou a inchar. Enjoado,
vomitando quase todos os dias, e minha barriga inchando. Não fazia sentido. Mas
a balança denunciava aquilo que meus olhos não queriam ver. A barriga inchada
tornou minha respiração difícil, tinha que respirar mais rápido e mais
superficialmente. Minha capacidade de concentração, sempre tão boa, sumira. Meu
andar modificou, se tornando lento e eu me desequilibrava toda hora. Vez por
outra, sentia uma dor na barriga que, do mesmo jeito que vinha, ia embora. Tudo
era muito estranho e eu estava sempre muito assustado e com medo de procurar um
médico. Um dia, as dores se tornaram muito forte, nem tinham ido embora e já
voltavam e não encontrei outra maneira de resolver aquilo que não procurar um
pronto socorro. A dor na barriga era intensa demais! O médico viu, olhou e me
encaminhou para uma sala onde tinha uma cama para espera. As dores pioraram e
gritei para uma enfermeira que precisavam fazer algo, nenhum medicamento para
dor ainda tinham me dado. Nenhum remédio e a dor foi piorando. Quando meus
gritos de dor começaram a incomodar muito, me levaram para outro quarto. E foi
então que quando senti que ia desmaiar, fechei os olhos, pensei em Deus, e ouvi um
choro. As dores desapareceram. Indefeso, fraco, e assustado com o mundo, assim
nascia uma criança e uma união para a vida toda. Dele posso ter me separado em
corpo, mas meu espírito e minhas preocupações estão sempre com ele.”
Este
milagre se repete todos os dias. Toda uma humanidade que se renova pelo gesto
de doação das mulheres que geram a vida. No dia das mães, lembre-se dos nove
meses que se tornaram um sentimento que não morre. Da pessoa que teve
dificuldade para caminhar durante meses porque te carregava juntinho de você e
de quem passou por dores fortes para que você pudesse respirar e viver. Se
milagre significa algo maravilhoso ou extraordinário, milagre é sinônimo de ser
mãe. Um milagre do qual todos nós participamos.
Artigo da edição 265 do Jornal Gazeta de Contagem de 08/05/12 a 14/05/12

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